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Tudo em seis segundos

Muitas vítimas morreram antes do impacto, mas corpos revelam aflição e pânico

Renata Mariz

Enviada especial – Correio Braziliense

São Paulo — Não mais que seis segundos. Foi esse o tempo que o avião da TAM levou da aterrissagem malsucedida até a explosão, no início da noite de terça-feira. Pela posição dos corpos retirados de dentro da aeronave, as 186 pessoas a bordo sabiam que algo de errado estava acontecendo. “A posição era de defesa, alguns estavam agarrados às poltronas. Eles esperavam uma colisão”, diz o doutor Douglas Ferrari, presidente da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva. O médico, que participou do resgate das vítimas do vôo 3054, afirma que muitos morreram antes mesmo da explosão. A aeronave estava numa velocidade entre 150km e 200km antes de colidir com o prédio do outro lado da Avenida Washington Luís.

Algumas das 186 pessoas a bordo nem sequer chegaram vivas ao momento da colisão, na avaliação do especialista. “Podemos estimar que 50% dos passageiros morreram só com a desaceleração da aeronave, que causa, entre outras coisas, traumas encefálicos”, explica Ferrari. “O restante estava desacordado na hora da explosão”, afirma. Dentro do avião, os bombeiros conseguiram encontrar corpos íntegros, apenas com queimaduras leves. Já as vítimas resgatadas fora da aeronave estavam totalmente carbonizadas.

O efeito das chamas foi mais destrutivo na parte da frente do avião. Isso porque, com a desaceleração e posterior colisão com o prédio da TAM Express, o combustível teria sido “jogado”, por inércia, para a dianteira. Bombeiros que participaram no resgate relatam que os corpos dos passageiros sentados na parte traseira foram encontrados em estado menos deteriorado. Os da frente teriam sido mais atingidos, tanto pelo fogo quanto pelo impacto da colisão. Quando a pane não é tão rápida, o piloto pode ejetar o combustível, mas no desastre de terça-feira isso não foi possível.

Pavor

Para Douglas Ferrari, que chefiou a equipe de 15 médicos intensivistas durante o resgate, não há dúvida de que os passageiros temiam pelo pior. “A rigidez cadavérica é capaz de nos mostrar como se encontrava a pessoa antes de morrer. Apesar de o desastre ter sido súbito, não mais que seis segundos, houve tempo de eles entenderem que viria um impacto”, afirma.

O mesmo ocorreu com as vítimas encontradas do lado de fora da aeronave, que estavam no posto de gasolina atingido pelo Airbus da TAM. Muitas foram localizadas entre os destroços com as mãos no rosto, numa expressão de pavor. Uma vítima que estava dentro do avião chamou a atenção dos bombeiros: estava com o filho no colo, numa tentativa de protegê-lo.

Enquanto a equipe continuava os trabalhos de resgaste, era enterrada a primeira vítima da tragédia. O empresário Osvaldo Luiz de Souza, de 49 anos, dono de uma transportadora que trabalhava com a TAM Express, fazia uma entrega no hangar ao lado do prédio atingido em cheio. Seu corpo pôde ser retirado e identificado mais rapidamente porque ele não sofreu queimaduras: uma parede caiu sobre o empresário, causando traumatismo craniano.

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