Embraer dispara no ano, mas analistas ainda veem ganhos

Por Beatriz Cutait | Valor
De São Paulo 

Com valorização de 47,4% no ano - a maior alta do Ibovespa - e de 65,5% no acumulado dos últimos 12 meses, as ações da Embraer têm chamado atenção na bolsa brasileira. O desempenho dos segmentos comercial e de defesa, a recuperação da economia americana e os novos contratos e encomendas são apontados como fatores responsáveis por impulsionar os papéis da fabricante de aviões, que também tem contado com o elemento câmbio a seu favor.

Mas com uma trajetória tão positiva em um ano em que a bolsa brasileira despenca, ainda há espaço para apreciação? Analistas indicam que sim.

O HSBC iniciou nesta semana a cobertura dos papéis da Embraer com recomendação de compra ("overweight") e preço-alvo de R$ 27,00, o que indica valorização potencial de 27,6% sobre o preço de fechamento do pregão de terça-feira (23). A casa ainda tem preço-alvo de US$ 46,00 para as ADRs (recibos de ações negociados nos EUA) - que já sobem 34,3% em 2013 - nos próximos 12 meses.

Pelos cálculos do HSBC, pelo critério EV/Ebitda (indicador que mostra o valor da empresa sobre uma medida simplificada de sua geração de caixa e que pode dar uma ideia do prazo de retorno do investimento), os papéis da Embraer estão sendo negociados a 8,1 vezes para este ano, ainda abaixo da média dos últimos dez anos (9,7 vezes), segundo cálculos do Valor Data. Já ao considerar a relação Preço/Lucro (P/L), a projeção para 2013 do HSBC indica que os papéis estão mais caros, ao serem negociados a um múltiplo de 22,6 vezes, acima da média da última década (20,7 vezes).

Ainda de acordo com o banco, levando em conta as projeções para 2014, as ações estão sendo negociadas a múltiplos EV/Ebitda e P/L de 7,3 vezes e 15,2 vezes, respectivamente. Os valores indicam um prêmio em relação à média dos concorrentes, mas que, na visão do banco, é justificado pela sólida carteira de pedidos e pela liderança de mercado na categoria de jatos regionais.

Em relatório assinado por Alexandre Falcão, Ravi Jain e Gustavo Gregori, o HSBC chama atenção para o segmento de defesa e segurança, com a maior contribuição potencial para a geração de valor da companhia, respondendo por 40% do "valuation". "defesa gera uma margem bruta relativamente alta e exige um capex [investimento imobilizado] mínimo (financiado pelo governo)", afirmam os analistas, que dizem acreditar que, com os novos jatos executivos Legacy 450 e 500, a Embraer está bem posicionada para uma potencial recuperação dos negócios do mercado de aviação.

O HSBC estima uma taxa anual de crescimento de 11% para a receita do segmento de defesa nos próximos cinco anos, elevando sua contribuição para a receita total da companhia de 20% para 25%.

"Além disso, a parceria com a Boeing e os pedidos da força aérea americana constroem credibilidade e ajudam a Embraer a penetrar em novos mercados", diz o banco.

Outro ponto importante se refere à influência positiva da depreciação cambial sobre a companhia. "A Embraer se beneficia de um real mais fraco com 85% de suas receitas em dólar e 25% dos custos em reais. Uma análise de sensibilidade indica que uma desvalorização de 10% da moeda brasileira poderia resultar em uma melhoria de 80 a 90 pontos-base da margem operacional", afirmam os analistas do HSBC.

A Embraer seguiu na carteira de ações recomendadas pelo banco para julho, com peso de 10%.

Para Mário Bernardes Junior, analista do BB Investimentos, a própria receita atua como um hedge natural à companhia. "Tanto 2013 quanto 2014 são anos promissores para a Embraer por conta da recuperação do mercado externo, principalmente dos Estados Unidos. O papel da empresa subiu muito, mas ainda há espaço para alta. O desempenho vai depender bastante do que a companhia vai entregar em resultados e contratos", diz.

No primeiro semestre, a Embraer entregou 39 aviões comerciais e 41 executivos. Ao fim de junho, a carteira de pedidos firmes a entregar (backlog) totalizava US$ 17,1 bilhões, um incremento de US$ 3,8 bilhões sobre o valor de março e também bem acima dos US$ 12,9 bilhões de um ano antes.

Com esse montante, a companhia atingiu o maior valor de "backlog" desde o terceiro trimestre de 2009. 


O BB está fazendo a modelagem da companhia para iniciar a cobertura de suas ações. Assim como o HSBC, o analista destaca o segmento de segurança e defesa da Embraer, com um crescimento anual expressivo, e ainda chama atenção para o desenvolvimento da aviação regional no Brasil.

Ontem, o J.P. Morgan elevou a recomendação para as ADRs da fabricante de aeronaves de venda para neutra e aumentou o preço-alvo de US$ 40,00 para US$ 43,00. A alteração levou em consideração a expectativa de revisões de estimativas pelo mercado após a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2013, prevista para hoje, após o fechamento do pregão. A recomendação foi para neutra, e não para compra, pela fraca taxa de conversão dos pedidos em caixa esperada no curto e longo prazo.

Entre os riscos citados para a empresa, o HSBC cita a possibilidade de o ciclo de encomendas de grandes jatos regionais nos Estados Unidos estar chegando ao fim e faz menção à decisão estratégica de remodelar jatos da família E-Jets e à fraqueza do mercado de aviação executiva, além de uma redução dos gastos do governo brasileiro com defesa.

Com visão mais pessimista que as demais casas, o Citi tem recomendação de venda para as ADRs e preço-alvo de US$ 32,00. Um dos pontos críticos considerados pela instituição diz respeito à dependência da empresa a uma única companhia aérea. A Embraer, segundo relatório do banco, tem 38% da sua carteira de pedidos firmes na aviação comercial vindos da SkyWest, com grande parte dessas ordens sem geração de receita por pelo menos sete anos. "Sete anos é muito tempo para uma companhia aérea, é quase uma eternidade", diz o Citi. (Colaborou Daniela Meibak)


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