Pular para o conteúdo principal

Crise entre Aeronáutica e controladores de vôo piora



Cresce a insatisfação com cobranças e falta de oportunidades de aperfeiçoamento

Jailton de Carvalho

BRASÍLIA. Um ano depois do acidente com o Boeing 737-800 que fazia o vôo 1907 da Gol, a relação entre controladores de vôo e o Comando da Aeronáutica é de fratura exposta. Os controladores, responsáveis pelo gerenciamento do tráfego aéreo, afirmam que boa parte dos problemas técnicos e operacionais do setor não foi resolvida e continua sendo jogada para debaixo do tapete. Um número expressivo de controladores tem apresentado doença de origem nervosa. Por tudo, entendem que viajar de avião em território brasileiro é hoje mais arriscado do que há um ano. A crise, que já era aguda, ficou ainda mais grave após a divulgação, na sexta-feira, do relatório preliminar do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes (Cenipa), apontando falha humana como epicentro da tragédia.

Controladores estudam para mudar de profissão Com receio de novas punições e certos de que jamais voltarão a uma convivência pacífica com os chefes, muitos controladores estão estudando para fazer concursos públicos e, se aprovados, mudar de profissão. Para ele, grandes baixas deverão acontecer a partir do próximo ano.

A Comissão de Investigação do Cenipa, vinculado ao Comando da Aeronáutica, sustenta que um grupo de controladores de vôo teve papel preponderante no conjunto de falhas que resultaram no choque entre o Boeing da Gol e o Legacy da Excell-Aire. Os controladores reconhecem parte da responsabilidade, mas acusam a Aeronáutica de, ao não reconhecer que gere de forma ineficiente, há anos, o sistema aéreo, se eximir da sua parcela de culpa. Por exemplo, ao fazer vistas grossas aos problemas do software usado no controle do tráfego aéreo.

- Parece até uma grande armação. Tinha que ter um bode expiatório e esse bode expiatório são os controladores de vôo. Sabíamos, desde o início, que eles não admitiriam falha no sistema. É vergonhoso um país que não reconhece e não corrige seus erros. Fico revoltado com isso - afirmou Edileuzo Cavalcante, diretor de Mobilização da Associação Brasileira de Controladores de Tráfego Aéreo (ABCTA), antes de começar um culto ecumênico dos controladores, na Administração Regional do Guará, na noite de sábado.

Controlador diz que inglês falado pela maioria é ruim

O culto, organizado para estimular a reflexão espiritual, acabou se transformando num momento de desabafo e revelações surpreendentes sobre supostas falhas do sistema. Um controlador, com larga experiência no setor, disse que o sargento Jomarcelo Fernandes, apontado como um dos principais responsáveis pelo choque entre os dois aviões, foi classificado como "deficiente" em três das cinco avaliações práticas a que foi submetido antes de receber o Certificado de Habilitação Técnica de controlador de vôo. Ele só teria sido aprovado porque, já naquele momento, a Aeronáutica precisava urgentemente de ampliar o contingente de controladores de vôo.

- O Jomarcelo "tomou toco" três vezes. Ele dizia que não queria ser controlador de vôo. Mas, mesmo assim, ele foi "passado". Ele e muitos outros. A Aeronáutica estava precisando de novos controladores e não podia deixar ele desistir - disse um dos militares presentes ao culto.

Para Edileuzo Cavalcante, único do grupo disposto a falar abertamente do assunto, os problemas na formação dos controladores são notórios. Segundo ele, o inglês falado pela maioria é sofrível. Todas as comunicações do setor são feitas em inglês em qualquer aeroporto do Brasil ou do exterior.

Cavalcante afirma que, antes do acidente com o avião da Gol, cursos de aperfeiçoamento de inglês em geral eram oferecidos para vários militares, menos para os sargentos da área operacional:

- Tenho 20 anos de tráfego aéreo e só arranho o inglês.

Os controladores também comentavam, com apreensão, sobre as doenças contraídas pelos colegas supostamente em conseqüência da pressão a que estão sendo submetidos. Pelas contas do grupo, cinco colegas tiveram AVC (acidente vascular cerebral) nos últimos dois meses.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Avião da TAM retorna após decolagem

Jornal do Commercio SÃO PAULO – Um avião da TAM, que partiu de Nova Iorque em direção a São Paulo na noite de anteontem, teve que retornar ao aeroporto de origem devido a uma falha. Segundo a TAM, o voo JJ 8081, com 196 passageiros a bordo, teve que voltar para Nova Iorque devido a uma indicação, no painel, de mau funcionamento de um dos flaps (comandos localizados nas asas) da aeronave. De acordo com a TAM, o avião passou por manutenção corretiva e o voo foi retomado à 1h28 de ontem, com pouso normal em Guarulhos (SP) às 10h38 (horário de Brasília). O voo era previsto para chegar às 6h45. A companhia também informou que seu sistema de check-in nos aeroportos ficou fora do ar na manhã de ontem, provocando atrasos em 40% dos voos. O problema foi corrigido.

Empresa dona de helicóptero que transportava Boechat não podia fazer táxi aéreo e já havia sido multada por atividade irregular, diz Anac

Agência diz que aeronave só podia prestar serviços de reportagem aérea e qualquer outra atividade não poderia ser realizada. Multa foi de R$ 8 mil. Anac abriu investigação. Por  G1 SP A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirmou que o helicóptero que caiu na Rodovia Anhanguera no início da tarde desta segunda-feira (11), em que o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci morreram, não podia fazer táxi aéreo, mas sim prestar serviços de reportagem aérea. Ainda segundo a Anac, a empresa foi multada, em 2011, por atividade irregular. Helicóptero prefixo PT-HPG que se acidentou na Anhanguera — Foto: Matheus Herrera/Arquivo pessoal "A empresa RQ Serviços Aéreos Ltda foi autuada, em 2011, por veicular propaganda oferecendo o serviço de voos panorâmicos em aeronave e por meio de empresa não certificada para a atividade. Essa atividade só pode ser executada por empresas e aeronaves certificadas na modalidade táxi aéreo. A autuação foi definida em R$ 8 mil

A saga das mulheres para comandar um avião comercial

Licenças concedidas a mulheres teêm crescido nos últimos anos, mas ainda a passos lentos. Dificuldades para ingressar neste mercado vão do alto custo da formação ao machismo estrutural Beatriz Jucá | El País Quando Jaqueline Ortolan Arraval, 50 anos, fez a primeira aula experimental de voo, foi mais por curiosidade do que por qualquer pretensão de virar piloto de avião. Era início dos anos 1990 e pouco se via mulheres comandando grandes aeronaves comerciais no Brasil. "Eu achava que não era uma profissão pra mim", conta. Ela trabalhava no setor processual em terra de uma grande companhia aérea, e o contato constante com colegas que estudavam aviação lhe provocaram certo fascínio. Perguntava tanto sobre a experiência de voo que um dia um amigo lhe convidou para acompanhá-lo em uma das aulas. A curiosidade do início se tornou um sonho profissional, e Jaqueline passou a frequentar aeroclubes e trabalhar incessantemente para conseguir pagar as caras aulas de aviação e acumul